6 de agosto de 2015

Ela olha o telefone novamente. Não entende o que fez de errado, se é que há algo de errado em simplesmente demonstrar interesse a alguém… Será paranoia? Será ansiedade? Instintivamente ela rememora toda a conversa que havia fluído fácil até ali. Se encantara com a possibilidade do diálogo fluir leve e gostoso com alguém que ria de suas piadas inteligentes e achava graça nas particularidades do dia a dia. Se encantara a ponto de dizer “Seria ótimo sairmos novamente, o que acha?” “Sim, sim. Vamos marcar”… E então, após isso, as palavras foram rareando, as conversas foram subtraindo-se e o que antes era leve e gostoso se tornara pesado e sombrio… Será que fora desadequada? Mas qual é a adequação de se exprimir com as palavras para alguém? Qual é o problema de aceitar seus impulsos e tornar claro aquilo que muitas vezes é difuso e vago? Olha novamente o celular e pensa, quantas vezes já passara por isso.. Quantas vezes se sentiu inadequada por simplesmente ser? Uma raiva surda nasce dentro de si. Sabe que a conversa não mais fluirá e que, possivelmente, nem as risadas e o encontro agendado para um desses dias acontecerá. A raiva aos poucos mina suas resistências e chora. Chora por mais um amor que não se concretizou, por mais um que a julga inadequada – mesmo sem o saber ou perceber – por ser mulher e se posicionar perante seus desejos ao invés de ser conduzida. Chora por saber que milhares de mulheres diariamente se reduzem a nada para entrarem num jogo onde apenas elas perdem… Chora possivelmente não por si, mas pelo fato de simplesmente ser…

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