11 de julho de 2016



E ela sorri, sorri como uma criança que ganhou brigadeiro escondido na festa de bodas de prata dos seus avôs. Sorri como uma menina levada que rouba seu primeiro beijo. Sorri sem medo, sem entraves ou cobranças.
“Procure viver, lembrar é para os mais velhos”. Lembra da frase estampada no livro de cabeceira de sua adolescência e percebe que após muitas dúvidas e medo passou a viver. Viver em sintonia consigo, com seu coração, seus desejos e anseios.
Percebe que a cada não, a cada hesitação, a cada cara quebrada se tornou mais forte. Mais bonita e mais mulher. Descobriu que não existem regras definidas, ou ainda, comportamento apropriado e o que importante é ser o que se é; dar o que se têm e viver simplesmente.
“Você não é boba, você é feliz”. E essa constatação a faz rir. Ela é feliz por aceitar que a vida é uma aventura que vale a pena ser vivida; que os melhores momentos são aqueles que compartilhamos com quem amamos; que a pipoca do cinema é mais gostosa quando se compartilha com várias mãos; que o amor a visita a cada passo do caminho e que só é preciso estar atenta a ele.
Sim ela é feliz, embora muitas vezes surjam dúvidas e várias falas em sua cabeça. Ou ainda, vários conselhos equivocados ou placas dizendo “Alerta, vai dar ruim.” Mesmo assim, ela é feliz por se permiti aprender, errar e a pedir desculpas quando pisa na bola – e ela sabe que inúmeras vezes ela pisa na bola. Ela é feliz comendo sorvete ou simplesmente pegando o ônibus de volta pra casa após ter compartilhado seu corpo, sua alma e seu coração com quem enfeita seus dias, lhe escuta, dá bronca e enxuga suas lágrimas.

17 de junho de 2016

"Eu gosto de você" - a frase fica pendurada no céu da boca como aquela estrela cadente que não teve a ousadia de se jogar rumo a o infinito... E ela sorri, sorri sem jeito por se sentir nua, sorri sem jeito como uma criança que aprendeu o significado da vida, sorri sem jeito como se mundo inteiro fizesse um volta inteira apenas para lhe ver sorrir.

Ela sente o cheiro da sopa que ferve no fogão, o gosto do vinho na boca e agradece... Agradece a vida que lhe trouxe a oportunidade de sentir, agradece aquele homem que está ali lhe fazendo tão bem por mostrar à ela que, sim apesar dos pesares, ela é capaz de sorrir e de se entregar de forma pura e aberta a algo que simplesmente é.

É como se em um único instante todo o universo fizesse sentido, simplesmente por que ali ela reuniu um pedaço de si que havia a muito perdido...



21 de maio de 2016



E de repente o mundo se silenciou... Naquele abraço gostoso, as lágrimas escorriam frias em seu rosto quente... Perdeu a noção das horas, dos minutos e segundos a única coisa que sentia era o abraço que a envolvia, o calor do outro corpo e a voz que sussurava em seu ouvido:
“foi assim como ver o mar
A primeira vez que meus olhos se viram no seu olhar...
Não tive a impressão de me apaixonar
Mera distração e já era, momento de se gostar... “
Ali ela descobriu o que era o amor....

19 de maio de 2016

Ela se senta gostosamente no parapeito de sua varanda, sentindo o vento tocar-lhe o rosto e o cheiro suave de seu chá. Respira e percebe que há dias medita sobre as suas práticas. Seu olhar no mundo e sua coerência. Uma passáro passa no céu e ela sorri ao pensar em como com a leveza dos passarinhos, a astúcia das cobras, a lealdade dos cães e o perfume das flores ela pode fazer melhor do que faz para de alguma maneira transformar-se. Transforma-se em algo melhor, em um ser humano melhor, pois ela acredita que transformando-se também se transforma o mundo ao seu redor.  Um gole longo em seu chá, olha o céu e pensa: "Como somos responsável pelo mundo que vivo". Ele pousa o olhar nas flores de seu gramado e continua a pensar: "Alguns dirão que as estruturas estão dadas, outros que a sociedade nos impõem padrões e alguns outros ainda dirão que são os astros,Deus ou Zaratrusta. Claro que há fatores externos e internos para que o mundo seja o que é neste momento agora. Claro que não se pode fechar aos olhos disso. Mas claro também que tenho uma parcela de responsabilidade sobre o que acontece no mundo." Recordo-se então de um livro antigo: "O Dom Supremo" um sermão de um aspirante a padre onde ele colocava o amor como o maior dom de todos no mundo e afirmava, com um exemplo simples, que dar uma moeda ao mendingo não é amá-lo, pois se o amássemos verdadeiramente nós faríamos muito mais do que dar uma esmola. Esse exemplo cala fundo em seu coração e  na coerência necessária em ser melhor para transformar o mundo em algo bonito de se viver. O barulho do vento a faz parar sua meditação por alguns breves segundos, e, então, ela retorna: "Neste processo é necessário que eu pense essa transformação não se impõem ao outro ferindo em seu direito de ser o que é e ai que talvez a coisa se complique... Pois a mudança é algo estrutural, silencioso e ocorre de dentro para fora - sem violência ou revoluções. O mundo precisa, ou melhor eu preciso, ser melhor para ter uma vida melhor e assim reverberar na vida dos demais." Ela olha novamente as flores no jardim, seu chá está morno agora por causa do frio, mas isto não tem importância...

11 de maio de 2016



E ela se olha no espelho, bela como nunca se viu... Seus pensamentos voam com uma rapidez invejável... De um momento para o outro o espelho se torna uma enorme janela e ela vê  ali tantas possibilidades de futuro...
Amigos, filhos, piqueniques... Coisas simples e gostosas da vida que a encantam, como as manhã preguiçosas de domingo... Porém, mesmo ansiando por isto a vida parece lhe impor um ritmo próprio...
Quantas vezes calara os sentimentos? Quantas vezes se refugiara em seus livros, cadernos ? Quantas vezes não chorou em silêncio por desejar algo que não sabe muito bem o que é...
A janela volta a ser espelho e ela simplesmente se vê. Não sabe quanto tempo passara ali admirando a vista ou simplesmente perdida em seus sonhos... Batidas na porta, outra reunião, outra conferência.. Outra vez o mundo lhe chamando para fora, quando o que mais queria era estar ali com seus sonhos ....

28 de abril de 2016



E a vontade de escrever a inquieta... A muito a pena de seu livro jaz adormecida, distanciada que está de suas cores íntimas... Porém naquela noite ela caminha,  de um lado a outro sem conseguir resistir ao doce impetuo de escrever... Senta olha a pena, pensa, sente e se entrega... Simplesmente rasga o verbo naquelas páginas colocando suas angustias, medos e aflições... Mas também, dentro das palavras às vezes tão torturosas  há poesia, magia e afeição... Olha para sua obra, como quem admira o rosto de algum namorado... Não condena e nem sorri apenas constata que ali há uma parte de si....

27 de abril de 2016

Cai a noite na cidade, cai a neblina dentro de mim
Eu, uma partícula mínima
De um átomo que circunda
Um cosmo por mim desconhecido
Cai a chuva, cai a gota do orvalho sobre mim
Ali onde tantos desistem
Eu sigo e insisto
Sem me lembrar da neblina, da partícula
Apenas com o gosto da gota de orvalho
Diante do cosmo, ainda desconhecido.

(Guisordi, 2016)